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Voz da Arquibancada
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25/10/2015 | Voz da Arquibancada
Plínio - Um Azul de Coração Verde, Branco e Vermelho

“O coração tem razões que a própria razão desconhece, ensinava Pascal. A mim me foi dado o destino numeroso de ser cruzeirense” Sandra Starling

Por Luiz OT Barreto

“O coração tem razões que a própria razão desconhece, ensinava Pascal.
A mim me foi dado o destino numeroso de ser cruzeirense”
Sandra Starling

Nos últimos anos do século XIX e nas primeiras décadas do século passado, o futebol era um esporte caro e, por isto, praticado por pessoas nascidas em famílias abastadas. Não havia produção de bolas, uniformes, redes, calçados. Tudo era importado. A massa trabalhadora se divertia com o carteado, rinhas de galo, corridas, pesca nos riachos e córregos despoluídos da nova capital mineira.

Mas, a prática do ludopédio (o jogo com os pés), aos poucos, atraía observadores e admiradores. Não tardou a despertar a curiosidade nas colônias de imigrantes, que chegaram a Minas Gerais para trabalhar e tornar habitável aquela cidade planejada.

Naquele início de século, dois times – Atlético Mineiro e América – despertaram o interesse da então pequena classe média, composta de famílias de funcionários públicos, tanto quanto da elite republicana. É certo que, aqueles que trabalhavam nas atividades braçais acabariam se interessando pelo esporte.

Muitos times se formaram nos subúrbios, e o Campeonato da Cidade já era
considerado uma competição de interesse geral. Lá pelos idos de 1920, era pouco provável que as crianças se interessassem pelo jogo de bola com os pés, e a sua prática era coisa de adolescentes e “marmanjos”.

Plínio Bossi Barreto nasceu em setembro de 1922. Seu pai, Adamastor Barreto de Oliveira Braga, era um servidor público de nível médio da Imprensa Oficial. Sua mãe, Rosa Marcenaro Bossi, a dona Nina, era filha de um imigrante italiano, mestre de obras, que veio trabalhar na edificação da capital.

“Seu” Barreto participava da diretoria do Guarani Futebol Clube, o “alvinegro da Lagoinha”. Dona Nina não apreciava o futebol. A família de Plínio cresceu primeiro com o nascimento de quatro mulheres: Zazai,;Teté; Doca e Julieta. Os homens vieram depois: Orlando, o Dinho, Rubens, morto nos primeiros meses de vida e Plínio Barreto. Depois nasceram outras duas mulheres: Iris e Leda, e, mais tarde, a prima Zuzu se juntou à famíglia. Ninguém nunca conseguiu obter a verdade, mas é possível que “seu” Barreto tenha tido simpatia pelo Clube Atlético Mineiro, por causa da identificação com a ausência de cores do lacustre Guarani, gosto este que, logo ficou esmorecido. Após um jogo entre os dois alvinegros, lá pelos idos de 1930, o alvinegro da Lagoinha foi acintosamente prejudicado e perdeu o duelo, “seu” Barreto deve ter ficado muito aborrecido.
O avô, Otávio Barreto, era americano e assim todos os outros filhos, irmãos do Adamastor. O Dinho não era muito chegado ao futebol, mas pode ter se tornado atleticano seguindo alguma influência de amigos. O mesmo não se deu com o Plínio.

No fim da década de 1920, então com 7 anos, não gostava das cores do Atlético Mineiro e muito menos das cores do América. Disse-me uma vez que “elas eram sem graça e que, na escola Silviano Brandão, onde aprendeu a ler em 1929 e pela leitura de jornais, conheceu a Societá Sportiva Palestra Itália, time criado pela colônia italiana em 1921, quase dois anos antes dele nascer”.

O Palestra se consolidara como o time que desbancara a hegemonia do América e ganhara o tricampeonato de 1928/29/30. O time tricolor – verde, branco e vermelho – naquele final da década, montou um esquadrão cheio de craques, como os primos Nininho e Ninão, da tradicional família Fantoni, e aquilo tocou fundo o seu coração de italiano, o que acabaria por se tornar, uma verdadeira e eterna paixão.

Certa feita, lembrou Plínio, uma passagem que o marcou: “Eu ainda não tinha feito 10 anos, mas me recordo ter lido e recortado uma reportagem do Diário da Tarde que estampava uma manchete na página de Esportes: MELANCOLIA – Na tarde de Quinta-feira Santa a cidade despediu-se de Nininho. A notícia transcorria-se assim: ´Quinta-feira Santa. Quase seis horas da tarde. Os torcedores do Palestra enchendo a Estação da Central. Principalmente as torcedoras. Aquelas meninas que o sr. Antônio Falci reúne na arquibancada do centro nos dias de jogos, somente para que os outros clubes se danem. As meninas do Palestra são quase todas do primeiro time. Bonitas, elegantes e amáveis. E gostam mesmo do clube, com sinceridade e convicção. A resposta que a moça de vestido vermelho deu ao namorado que a proibiu de ir à Estação da Central foi esta: Nem que me pedisse hoje em casamento. A menina foi depressa ver o jogador Nininho, que ia embarcar para a Itália. Ninão também ia. O alvoroço aumentou e a praça foi tomada pela multidão. Quando o trem partiu, palmas, hurras e vivas. Pela bitola larga, o trem levava parte das glórias do Palestra`.

Na sua memória ainda sobrevive como aumentou sua paixão. “Lembro-me de um dia que o meu tio Lourenço ou foi o tio Ernesto, os dois irmãos de minha mãe, me levou para assistir a um jogo entre América e Palestra, no Estádio da Alameda, possivelmente em 1935. O América entrando em campo com o uniforme branco e, do outro lado, o Palestra com a camisa verde, calção branco e meias vermelhas. De cara gostei muito mais daquele uniforme”.

O tempo passando, a adolescência chegando. No trajeto da Lagoinha para o Colégio Santo Agostinho, onde fez o ginásio, obrigatoriamente o Plínio tinha que passar pelo Estádio do Barro Preto e, com certeza, fazia uma parada para assistir aos treinos do Palestra. Nos fins de semana, depois do almoço, ia para o portão dos sócios e quase sempre conseguia que um daqueles poucos sócios o colocasse para dentro do campo. Alguns tios e primos, do lado paterno, na certa não entendiam aquela ´heresia`, mas, certamente, os tios do lado materno - Ernesto, Lourenço, Davi –, sorriam ao ver ali mais um aliado de futuro.

Depois do tricampeonato de 28-29-30, o Palestra viveu anos duros. Com a ajuda somente dos poucos sócios, a adaptação ao profissionalismo, a partir de 1933, foi demorada. Além da ida de Nininho e Ninão para o futebol italiano, a revelação Niginho também se despedira. Outros craques debandaram para para o futebol mais profissional dos cariocas e paulistas. Entretanto, no final de 1935, Niginho voltou a jogar no Palestra como que prevendo uma mudança na trajetória barropretana. O centroavante brasileiro, com dupla cidadania, fugira da Itália para não participar da Guerra da Abissínia para a qual fora convocado. Os ânimos Palestrinos foram reanimados. Jovens promessas surgiram no clube e outras vieram do interior. Dez anos sem título se passaram e, no final de 1939, o armador Bengala, tricampeão de 28-29-30, encostou as chuteiras, virou treinador do Palestra e estavam apresentadas as condições para a montagem de um time espetacular.

O futebol só virou esporte de massa em Belo Horizonte no final da década de 1930, com a participação brilhante do Brasil na Copa do Mundo de 38. Plínio Barreto acompanhava tudo no auge da sua juventude e interesse.

Neste sentido, Plínio é lúcido na desmitificação da falácia sobre o tamanho das torcidas em Minas Gerais. “Acredito que foi aquele time que começou a fazer o Palestra a ganhar mais torcedores e a rivalizar-se com a torcida do América, em número de torcedores, já que o Atlético Mineiro tinha a maior torcida de então. O Palestra de 1940 jogava por música, um time cheio de craques. A começar pelo centroavante, o ´Tank Palestrino` Niginho. De tanto fazer gols no campeonato de 1936, despertou o interesse do Palestra de São Paulo onde foi campeão paulista de 1937, e no mesmo ano, campeão carioca pelo Vasco. Foi também convocado para jogar pela Seleção Brasileira na Copa da França, em 1938. Quando Bengala virou treinador do Palestra, Niginho voltou ao Barro Preto”.

Plínio lembra que, Bengala foi o grande responsável em armar o time de 1940. O escrete começava com Geraldo II, um dos maiores goleiros da história do Cruzeiro. Na zaga Caieira e Azevedo. Os alas com Souza na direita, Juca, um volante de categoria, e Caieirinha, ala esquerda de muita raça. Na linha de frente, Nogueirinha, ponta veloz e goleador, Geraldino, camisa 10 de rara categoria, o grande Niginho, que dispensava apresentações, Geninho, o cérebro da armação, e Alcides, ponta-esquerda que, para Plínio, só foi superado pelo grande Joãozinho, ídolo dos anos 70.

Foi uma conquista épica naquele ano, e Plínio destaca que “O Palestra foi perfeito no campeonato de 1940. Terminamos a competição empatados em número de pontos com o Atlético Mineiro e a decisão foi em melhor de três partidas. Vencemos a primeira por 3 a 1, no Estádio de Antônio Carlos. Eles deram o troco, em nosso território, nos vencendo por 2 a 1. O último jogo foi na “Alameda”, e o Palestra não deu chance para o azar: 2 a 0, gols de Alcides e Niginho. Eu estava lá e, no apito final, fui um dos torcedores que entraram no campo para carregar os jogadores. Foi um título para lavar a alma”.

Enquanto a 2ª Guerra Mundial, entre os países aliados e os nazifascistas, arrasava a Europa, o futebol e o país passaram a sentir os reflexos. O Brasil, que apoiou os aliados, sofreu várias mudanças nos esportes e na nossa sociedade. Clubes com nomes referentes à Itália e outros inimigos foram obrigados a se ´nacionalizar`.

Mostrando seu alinhamento com a história real, surgia o Cruzeiro, que seguiria honrando as glórias do Palestra. Plínio Barreto reforça que é um mito dizer que o Cruzeiro só cresceu depois do Mineirão. “Nos anos 40, já rivalizávamos em número com a torcida do América. O tricampeonato de 43-44-45 mostrou uma torcida inflamada e atuante. Os jogos no Barro Preto, Nova Lima, Sabará, Sete Lagoas, Curvelo e Barão de Cocais sempre contavam com uma grande torcida. Nós tínhamos tudo para continuar na caminhada dos títulos regionais. Foi impossível segurar os craques, ainda mais que, por causa do crescimento da torcida e dos associados, houve a necessidade da reforma e aumento das arquibancadas. Era preciso muito dinheiro, que um clube de trabalhadores não possuía; o clube ficou com muitas dívidas e sem condições para manter um grande time”.
Tudo tem um preço. Com o crescimento do clube e do estádio, o Cruzeiro pulou de duzentos para mais de dois mil associados. Era o maior número entre os três grandes clubes de Belo Horizonte, sem no entanto ter a arrecadação que seus adversários possuíam. Segundo Plínio, esta é a melhor prova que mostra a caminhada dos cruzeirenses para se transformarem na maior torcida de Minas, muito antes do que alguns relatam nos dias de hoje.

Plínio estudou as Ciências Contábeis, sem nunca ter exercido a profissão. Solteiro ainda, começou a trabalhar como funcionário público estadual e, paralelamente, nos inícios dos anos 50, ingressou no Tribuna de Minas como jornalista esportivo, tornando-se o jornalista Plínio Barreto. Uma época em que a imprensa era composta quase que inteiramente por repórteres que não escondiam a preferência pelo Atlético Mineiro ou pelo América. Como profissional, Plínio pôde testemunhar, na cobertura do futebol citadino, como tudo funcionava nos bastidores da imprensa. Como repórter esportivo buscava ser imparcial e foi quando os leitores mais atentos, principalmente os cruzeirenses, passaram a notar uma diferença nas coberturas esportivas feitas por ele. Para o cruzeirense, ler uma reportagem sobre um jogo do Cruzeiro ou sobre jogadores do time, escrita pelo Plínio Barreto, era perceptível a imparcialidade, crítica correta e elogios, que não eram gratuitos.

Plínio Barreto viveu o futebol dos anos 50 dentro dos campos, vestiários e escritórios de dirigentes. Dedicou-se a escrever sobre esporte no Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Manchete Esportiva (Rio de Janeiro). No ano de 1956 trabalhou por 3 meses no Rio de Janeiro no jornal Ultima Hora.

Nesta fase da vida, reconhece que era difícil ser jornalista e cruzeirense. “Era uma barbaridade”. Ressalta que presenciou campeonatos em que o Cruzeiro perdeu nas disputas extracampo e foi escandalosamente prejudicado pelas arbitragens. Prossegue dizendo que “Jogos que não terminavam, enquanto o adversário não conseguia sair vitorioso, eram comuns. Houve influência dos juízes na disputa da competição em 1953. Um absurdo. Em 1956, usaram um jogador em flagrante situação irregular. O atleta Laércio do Atlético Mineiro não possuía o certificado de reservista, documento obrigatório para que a inscrição fosse feita. Uma fraude permitiu a inscrição do atleta e a Federação Mineira de Futebol aceitou descaradamente. A questão foi para o Tribunal de Justiça Desportiva e o Cruzeiro teve reconhecida a sua causa. Foi para o STJD, nova vitória do Cruzeiro. A FMF protelava para acatar o título a favor do Cruzeiro, dentro e fora de campo, permitindo, de maneira parcial, que o Atlético Mineiro se declarasse pentacampeão. Absurdos como esses eram frequentes e, entendo que, por isso mesmo, a torcida cruzeirense não parava de crescer”.

Em 1958, novos ventos empurravam o Palestrino Plínio para o crescimento e glória do Cruzeiro. Surgia um dirigente que se tornaria ídolo da torcida celeste: Felício Brandi. O jovem Felício e Plínio eram quase vizinhos e as duas famílias se conheciam bem. A diferença de idade era grande. Plínio Barreto já adolescente, de vez em quando era requisitado pela ´dona` Rosa Brandi para que acompanhasse o filho Felício nos jogos do Palestra. Assim que Felício Brandi tornou posse como diretor de futebol do Cruzeiro, no final de 1958, a tal diferença de idade pouco importou, e a amizade ficou e a paixão de ambos ficaram mais sólidas.

O Cruzeiro retomou a liderança do futebol mineiro em 1959 ao ser campeão. Naquele ano, a dobradinha Felício Brandi/Carmine Furletti passou a conduzir o time estrelado. Brandi como presidente e Furletti, diretor de futebol. Uma parceira que, por mais de duas décadas, faria o Cruzeiro entrar para a elite do futebol brasileiro. Enquanto isto, Plínio Barreto, jornalista que fazia a cobertura do Cruzeiro para os Diários Associados, logo se tornou presença importante nos planos e projetos de Felício e Furletti. O jornalista, como um assessor e conselheiro informal, era consultado sobre jogadores e, até mesmo para ajudar na contratação de atletas.

Um dos casos mais pitorescos, e que revela como o futebol de décadas passadas, mesmo na Era do Profissionalismo, era feito de apaixonados como Plínio, é o relato dos acontecimentos da contratação do grande zagueiro Procópio Cardoso Neto.

O jogador, revelado pelo time da Renascença, bancado pela fábrica de tecidos do bairro de homônimo, era disputado por Cruzeiro e seu rival. Para Brandi, era mais do que desejo, era uma obrigação, ter o jogador atuando no Barro Preto. No dia da contratação, Plínio, já ciente da transação, foi para a sede do time da Renascença, atrás da notícia. Procópio conta que “o Felício Brandi não aparecia para fechar o negócio. Talvez algum problema na indústria de macarrão dele. O atraso e ausência estava deixando o presidente do clube renascentista nervoso. Ele queria desfazer o trato e vender o passe para o Atlético Mineiro. Ele queria uma nota promissória para fechar o negócio e o tempo passando e nada de o Felício chegar. Não é que o Plínio pegou a promissória e assinou. Saímos da sede no carro da reportagem – eu, o Plínio, o fotógrafo, diretamente para a fábrica Orion. Lá, o Plínio, bem agitado, falou sobre a necessidade da assinatura da nota promissória e que ela fosse trocada logo porque ele não tinha dinheiro para pagá-la. Da fábrica, todos seguimos para o Barro Preto e uma nova promissória foi preparada, assinada pelo Felício e pelo Azevedo, tesoureiro do Cruzeiro. Eu assinei o contrato e o Plínio deu a notícia em primeira mão.”

Caso como este, houve muitos. E na maioria deles, Plínio Barreto estava presente. Diversas foram as viagens, no início da década de 1960, para observar jogadores e sugerir contratações. A meta era fazer, de tudo, para o Cruzeiro ter um time que o lançasse, em definitivo, no cenário nacional e internacional.

Uma das ações para atingir a meta, envolveu a Seleção Mineira, Campeã Brasileira de Seleções em 1963, uma competição no estilo mata-mata, tradicional desde a implantação do profissionalismo no futebol do Brasil. A disputa terminou no final do ano e, no início de 1964, Felício partiu para a contratação de quase todos os campeões. Os cruzeirenses Massinha, Procópio e Rossi eram titulares da Seleção Mineira. Procópio foi vendido para o futebol paulista. Entretanto, Brandi contratou o volante Hílton Chaves, o zagueiro Willian, o goleiro reserva Fábio, o lateral-esquerdo Neco e o ponta-esquerda Nerival. Tostão, então com 16 anos, destaque nos jogos do IAPI, foi contratado. Dirceu Lopes, era uma das gratas revelações da categoria juvenil (na época não existia Júnior e a categoria aspirante era a imediatamente anterior aos profissionais). Wilson Piazza, que jogava no time do Renascença, teve o passe comprado. Hílton Oliveira, tricampeão de 59/60/61, tinha sido negociado com o Fluminense, mas logo retornaria. Até o treinador do selecionado mineiro, Mário César de Abreu, conhecido como “Marão”, foi contratado para treinar o Cruzeiro.

A obsessão de Brandi era ganhar a Taça Brasil, disputa que desde 1959 era objeto do desejo de todos os clubes nacionais. O campeão representava o Brasil na Copa Libertadores da América. O Cruzeiro havia disputado a competição nacional nos anos de 1960, 1961 e 1962, em todas as três edições não passou das oitavas. Neste período foi radialista na Rádio Guarani. E, em 1964, dirigia de forma pioneira, um programa na TV Itacolomi chamado “Cinco Estrelas na TV”, dedicado totalmente ao Cruzeiro.

No campeonato mineiro de 1964, com quase metade da seleção mineira defendendo a camisa estrelada, o time não se acertava. Plínio Barreto, repórter que cobria o Cruzeiro, escrevia suas críticas e, por isso, provocou o surgimento de algumas rusgas, notadamente com o treinador Marão. Para evitar o acirramento dos ânimos e potencialização do conflito, passou a acompanhar os treinos da janela do salão da sede do Barro Preto, na maioria das vezes ao lado de Aírton Moreira, então administrador social do clube.

De resenha em resenha, de comentário em comentário, um deles chamou bastante a atenção de Plínio: Aírton discorria sobre o que entendia ser um grande erro de posicionamento dos craques Dirceu Lopes e Tostão. Plínio relata que “O Aírton não entendia por que o Tostão, canhoto, jogava de meia-direita e o Dirceu Lopes, destro, fazia a meia-esquerda. Para ele, o time ficava torto. Dizia o Aírton: o Dirceu é muito veloz e ele é que tem que puxar os contra-ataques. O Tostão joga mais parado e tem um passe excepcional. Eu inverteria as posições: deixaria o Tostão jogando pela esquerda e o Dirceu pela direita. O Dirceu dribla e entra com velocidade na área, já o Tostão tem uma visão mais ampla e dificilmente perde um lançamento”.

Ouvindo aquilo, logo que terminou o treino, Plínio desceu para a sala da diretoria. O Felício estava possesso com o mau desempenho do time e não escondia o descontentamento com o treinador. Não deu outra, o jornalista logo falou: o técnico que você quer está aqui mesmo no Cruzeiro. É o gerente Aírton Moreira. Explicou a conversa para um Felício Brandi incrédulo, que de pronto não aceitou a sugestão. Mas bastaram mais dois resultados negativos e a troca foi feita. Assim sendo, aquele final de campeonato de 1964 serviram para desenhar o que seria o maior time da história do futebol mineiro até então. Aírton assumiu o time e faltavam seis jogos para o fim do campeonato, vencido naquele ano pelo Siderúrgica de Sabará. O time ficou invicto os seis jogos e, no duelo contra o campeão, um empate, em um dos melhores jogos da competição.

A base para o futuro campeão brasileiro de 1966, penta mineiro de 1965 a 1969, tetra de 1972 a 1975, e também campeão da Libertadores de 1976 estava lançada. Uma década que consolidou, definitivamente, o crescimento da torcida cruzeirense rumo à maioria em Minas Gerais. A “China Azul”, como ficou conhecida por representantes da mídia que torciam para o adversário, em pouco tempo ultrapassou o grande rival e hoje é disparada a maior de Minas Gerais e uma das maiores de todo o país, mais de 8 milhões de torcedores.

Plínio Barreto militou no futebol até a 1977. Mudou de editoria no jornalismo, com um natural afastamento dos gramados e bastidores do futebol, mas nunca deixou de acompanhar o time estrelado, seja pelo rádio ou pela TV. Editou e publicou livros contando seu conhecimento sobre o futebol mineiro, escreveu crônicas sobre diversos assuntos na sua trajetória jornalística, entre eles o futebol e, principalmente, o Cruzeiro. São obras do Plínio que devem ser mencionadas: “Lagoinha, Meu Amor”, livro de contos e crônicas onde fala sobre o bairro que nasceu; “Futebol no Embalo da Nostalgia”, onde conta a história do futebol mineiro desde o amadorismo até o primeiro título da Libertadores do Cruzeiro; “De Palestra a Cruzeiro: Uma Trajetória de Glórias”, que fala sobre a história do Palestra e depois do Cruzeiro; e finalmente “Vita, Passione e Lavoro de Nicola Calicchio”, no qual narra a vida de Nicola, vice-presidente de Cruzeiro e empresário desde que veio de Morigeratti, Itália, como imigrante.

Numa parceria comigo, destaco com imenso orgulho e alegria, que escrevemos a história sobre o surgimento do Palestra e a ligação do clube com a colônia italiana, a construção de Belo Horizonte, passando pela troca de seu nome para Cruzeiro. O livro “De Palestra a Cruzeiro – Uma Trajetória de Glórias”, que foi construído com o coração, tantas vezes sonhado. Lembro-me de que, nas primeiras conversas que tivemos para acertar a edição, eu deixei claro sobre a necessidade de ligar a questão histórica entre a construção de Belo Horizonte, a participação italiana e a integração e transição entre o Palestra e Cruzeiro.

Entendo que conseguimos traçar um paralelo inédito entre um time de futebol e a história mundial.

Plínio Barreto tornou-se sócio do Cruzeiro nos anos 50, eleito Conselheiro efetivo nos anos 80 e Conselheiro Nato em 2013, com 90 anos. Ele é um dos raros Palestrinos/Cruzeirenses que testemunhou todos os títulos conquistados desde sua fundação. O Cruzeiro é herdeiro e continuador das glórias conquistadas pelo tão querido e amado Palestra Itália de Plínio Barreto.

O torcedor Azul, de Coração Verde, Branco e Vermelho, às vezes, não esconde o saudosismo e declara: “como seria bom se o Cruzeiro tivesse um uniforme especial para lembrar as cores do Palestra. Talvez algum projetista de roupas, um designer, como dizem hoje, crie uma ideia, unindo as quatro cores: verde, branco, vermelho e azul. Seria uma homenagem muito especial”.

* Luiz Otávio Trópia Barreto, 50 anos, filho caçula de Plínio Barreto e Dona Trópia, é jornalista atuando na editoria de culinária e turismo. Coautor do livro “De Palestra a Cruzeiro – Uma Trajetória de Glórias”.


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 pyxis | BHZ | 25-10-15 01h04min
Este é um capítulo de um livro que deveria ser publicado algum tempo atrás. Um texto inédito, feito pelo Luiz Otávio, filho do Plínio Barreto, e que pretendia homenagear o mais ilustre palestrino da face da terra em vida.
Desculpe, Plínio, por não conseguirmos homenageá-lo em vida.
Descanse em paz !
 pyxis | BHZ | 25-10-15 01h13min
Fosse eu o escritor do livro "De Palestra a Cruzeiro" colocaria a terceira página com a cor preta neste momento.
 Celeste | Sorocaba-Itajub� | 25-10-15 15h16min
Uma bela história de vida permeada pela paixão azul...
 estrelado campeao | Ubá  | 25-10-15 23h10min
Luis Otávio, que Deus conforte o coração de todos vocês da família e na verdade de todos os cruzeirenses( a família ampliada) , pois seu pai "era nosso". Uma espécie de sexta estrela no nosso escudo. Que DEUS o tenha.
 Engracia | Não definido | 20-11-15 13h21min
Prezados. Excelente texto esse, do meu irmão Luiz Otávio. Agradecida pela publicação. Assim como vocês lamento que a homenagem não tenha sido feita em vida. Ele ficaria muito honrado. Gostaria que vocês fizessem uma retificação nos créditos dados ao autor: ele não é o filho mais novo e sim o segundo rebento de uma prole de sete filhos. E o nome de minha mãé Dona Elim Tropia Barreto. Grata
 Engracia | Não definido | 20-11-15 13h24min
Prezados. Excelente texto esse, do meu irmão Luiz Otávio. Agradecida pela publicação. Assim como vocês lamento que a homenagem não tenha sido feita em vida. Ele ficaria muito honrado. Gostaria que vocês fizessem uma retificação nos créditos dados ao autor: ele não é o filho mais novo e sim o segundo rebento de uma prole de sete filhos. E o nome de minha mãé Dona Elim Tropia Barreto. Grata
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