Marcel Fleming
Esta semana li um post interessante sobre o caso Schiavi, aqui. E concordei com a conclusão dele: “Uma pancada já não foi suficiente?”
Alimentar ilusões de uma mudança do resultado da competição não faz sentido. Não haverá essa mudança. E, convenhamos, na “lógica” do mundo da bola, uma eventual mudança de resultados ou uma re-edição da final ou das semifinais, sei lá, também soaria como consolação ou vitória no “tapetão”.
Pior ainda, uma eventual segunda derrota, essa sim, beiraria à humilhação. Ou seja, esqueçamos o assunto…
Opa, esqueçamos o assunto?! Acho que não. Não é bem por aí não.
Existe ou não um regulamento? Os demais times, Cruzeiro e Nacional inclusive, respeitaram ou não tal regulamento?
Então, se existe um regulamento, o que ele prevê de punição? Eu, honestamente, não sei. Tem que haver um julgamento do clube? Que sanções estão previstas?
Se houver previsão de realização de novas partidas semifinais, elas deveriam ocorrer, na minha humilde opinião.
Se a previsão regulamentar for a de que se delibere uma sanção, ela tem que ocorrer.
O que não pode é ficar impune. Que seja multa, exclusão do jogador ou clube de próximas competições (inclusive o Mundial?). Devolver à confederação o prêmio em dinheiro pela conquista.
Não falo como cruzeirense tentando reaver um título que perdemos em campo. Falo como cidadão.
O grande problema, para mim, é que mais uma vez o futebol sul-americano e, por consequência, nós sul-americanos, damos mais uma mostra de que tratamos os regulamentos, leis, regras como algo que só tem valor quando é pra se aplicar no outro.
Depois ficamos indignados com filmes e seriados enlatados americanos em que nosso país e subcontinente são mencionados como locais para onde fogem os fora da lei, ou de onde aparecem os criminosos.
Adianta ficar indignado com isso? Ou deveríamos nos indignar com a causa dessa imagem?
E o pior, a imagem do Estudiantes em nada é afetada? Continua como um inocente “réu primário”?
Infelizmente, o futebol é pródigo em exemplos de antiética e ilicitude. Faz parte do folclore a encenação de jogador para enganar o juiz, carta de presidente de clube pedindo proteção policial, mala-branca, mala-preta.
Depois, sempre vem o “abafa”, o “deixa-disso”.
Recentemente, surgiu uma possível denúncia de favorecimento ao Brasil em algumas copas do mundo.
Sumiu da mídia.
Quem não se lembra da maior mala-preta da história, aquela da Argentina ao Peru em 78?
Orgulhamo-nos daquele providencial passinho à frente de Nilton Santos num jogo contra a Espanha, se não me engano, que nos deu a possibilidade de seguir adiante em uma das copas que vencemos.
Ficou marcado, pra mim, uma afirmação do Zico, considerado um ídolo por muitos, mas não por mim, ao dizer que a melhor vitória é aquela aos 45 minutos do segundo tempo, com um gol de mão.
A mídia sempre tratou de manter essa “verdade” de que é um ídolo. Pode ter sido para os flamenguistas. E essa afirmação nunca teve maiores consequências.
Nós, brasileiros de todos os cantões, condenamos Nelson Piquet, o filho, em cadeia nacional. Será que o condenamos por ele ou pelo fato de um pai ter sido um “azedo” com a mídia? (E olha que ela era azedo por motivos até justificados).
O Cruzeiro, cujo nome, de certa forma foi um pouco manchado pelo recente episódio da mala-branca (não provado), vai ficar quieto quanto a isso?
Por que o Estudiantes vai passar incólume pelo episódio? Se sim, acho que tem aí uma “jurisprudência” e, nos anos por vir, poderemos “gatunamente” inserir jogadores irregulares e “ficar de boa” como se diz na gíria.
O que estou falando aqui é de valores, de ética. E falando também do comportamento da mídia. Essa mesma mídia que tanto valorizou a mala branca não provada, dedicou quase nenhuma linha quando se tratou do caso Schiavi.
Infelizmente, acho que os valores que vimos predominantes no futebol, e corroborados pela mídia, refletem, em certa medida, aqueles de nossa sociedade.
Indignamo-nos contra uma minissaia, mas não nos indignamos contra a desobediência a regulamentos.
Na verdade, nossa indignação é condicionada, relativizada. Depende de quem é o perpetrador, quem é a vítima… Estranho isso.
Neste caso, fica claro que, perante a Conmebol, os argentinos são mais iguais que os outros.
Será que estaremos fadados para sempre a conviver com isso?
Ou como diria Caetano: “Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos?”
De bate pronto
Cito Caetano integralmente para não perder o sentido da letra da música dentro do contexto. Nada contra a Igreja Católica ou os católicos, nem a intenção de derivar o debate para esse lado. Gostaria que os leitores se prendessem na metáfora e pensem-na em termos geográficos e político-sociais.
Marcel Fleming, 41, cruzeirense, analista de sistemas, nasceu em Lambari-MG, mora em São José dos Campos-SP.
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