Belo Horizonte (MG), 26/01/44
O deputado Jair Meneghelli chegou para a reunião no gabinete da líder do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados com a impagável carranca ornamentada por um sorriso amarelo. Bateu os olhos na dona do gabinete, a mineira Sandra Starling, e percebeu que teria pela frente um dia para se esquecer.
Ela estava com o vestido azul e branco das grandes ocasiões. Sabendo-se devedor de uma aposta feita dias antes, o deputado palmeirense foi logo mostrando a camisa e a gravata azuis. “Sandra, vesti azul, como combinamos!” A deputada abriu a gaveta, tirou uma camisa do Cruzeiro e apresentou a fatura: “Nada disso, apostamos que o perdedor vestiria a camisa do campeão”. Sem alternativa, Jair tirou o paletó, vestiu a camisa azul e branca e posou para os fotógrafos ajoelhado aos pés da vencedora. Estava paga a aposta feita às vésperas da decisão da Copa do Brasil de 1996.
O Palmeiras era um time demolidor, ninguém poderia imaginar que perdesse, no Parque Antártica, aquele título inédito. E que o feriado do dia seguinte – Corpus Christi – se transformasse num dia de “Porcos Tristes” segundo o jornalista Bóris Casoy, ele também palmeirense. Mas foi Meneghelli quem ficou com o mico de se ver, no dia seguinte, na Folha de S. Paulo vestindo a camisa do Cruzeiro.
Sandra Starling fez parte da bancada cruzeirense no parlamento brasileiro. Alguns políticos fizeram carreira depois de prestarem serviços ao clube. Como César Masci, eleito vereador em Belo Horizonte, e Zezé Perrella, eleito deputado federal por Minas. Outros fizeram trajetórias inversas. Foram da política ao futebol. Juscelino Kubitscheck (que deu nome do antigo estádio do clube), Aécio Neves (cujo paí, Aécio Cunha, foi vice-presidente na gestão Felício Brandi) e Sandra Starling (conselheira durante a gestão César Masci) são alguns desse grupo.
Sandra nasceu em Belo Horizonte, filha do juiz Benedito Starling e da professora Cecília D’Ávila Meira, torcedores do Flamengo e do América mineiro. Ela mesma, durante a infância, passada em São Domingos do Prata e Diamantina, torcia pelo Fluminense e vivia às turras com o irmão vascaíno.
Antes do Mineirão e, sobretudo, antes da conquista da Taça Brasil de 1966 pelo Cruzeiro, os times mineiros praticamente só possuíam torcedores em suas próprias cidades. Nessa época, Sandra só ouvia falar do futebol carioca. Somente quando mudou-se para Belo Horizonte, em 1962, foi que ela conheceu o futebol mineiro e encontrou justos motivos para virar casaca.
Morando no Barro Preto, próximo ao campo do Cruzeiro, não podia mesmo ficar imune ao encanto pela camisa azul estrelada. Ela explica: “As tias com quem fui morar, eram fanáticas pelo Cruzeiro; além disso, duas circunstâncias me aproximam irremediavelmente do futebol e do clube: a estética e a política. Futebol é balé, é pura arte. E o campo de futebol é o espaço mais democrático das sociedades modernas. Qualquer um pode torcer e jogar. Não há discriminação possível no espaço do futebol. E o Cruzeiro me encanta, justamente por esses aspectos: pelo jogo que é esteticamente insuperável e fica ainda mais bonito de se ver por causa da camisa azul com as cinco estrelas, e porque sua torcida é popular e sem preconceitos. Todas as raças e todas as classes freqüentam o clube e as arquibancadas azuis do Mineirão”.
Sandra Starling vive cercada de estrelas. Na camisa do Cruzeiro, na bandeira do seu partido e no próprio nome. Nome que veio da Escócia conforme a lenda familiar. No Século XIX, dois irmãos imigraram para a América do Sul; um para Argentina, outro para Minas Gerais. Os Starling mineiros, como o pai de Sandra, fizeram carreira no judiciário. Sandra formou-se em direito e trabalhou na Petrobrás, onde participou da fundação do Sindipetro. Foi também militante dos movimentos estudantis e operários católicos e ativista da campanha pela anistia.
Defendendo essas causas, acabou eleita deputada pelo PT. Em todos esses movimentos, os companheiros se espantavam com sua paixão pelo futebol, considerado pela esquerda dos anos 60 e 70, o ópio do povo.
Sandra fazia política e freqüentava o Mineirão. E mesmo às vésperas de seus partos continuava a acompanhar o time de Tostão e Dirceu Lopes, seus maiores ídolos. Tamanha dedicação acabou sendo reconhecida pelos sócios do Cruzeiro que a elegeram conselheira nos anos noventa.
Por ser deputada, Sandra sempre compunha a mesa nas reuniões do Conselho Deliberativo. Numa delas, viu-se numa situação de risco. Um conselheiro pediu a palavra e fez violentos ataques pessoais ao presidente César Masci que, ultrapassado o limite da paciência, resolveu rebater as ofensas. Sandra teria sido atropelada no confronto dos dois brigões se não usasse a experiência de militante política e pedisse a palavra para fazer um discurso apaixonado chamando todos à razão. Fez-se um profundo silêncio na sede do Barro Preto e a briga foi desviada para o terreno menos perigoso das idéias.
A experiência em apartar brigas partidárias foi, naquele momento, o que salvou o clube de uma briga que poria em risco a instituição. “Além da experiência, contei com uma das minhas estrelas, a da sorte”, divaga Sandra. E é dessas estrelas que Sandra fala numa crônica publicada no jornal Linha Direta, em setembro de 1997, ainda na euforia pela conquista da Libertadores. “As estrelas sempre me contemplaram com sorte e alegria. Acompanharam-me desde que nasci, grafadas em meu próprio nome. A estrela vermelha do PT, que tenho orgulho de ostentar é o mais significativo símbolo daqueles que acreditam e lutam por uma sociedade justa e fraterna. Também são estrelas, estas azuis e brancas, que me proporcionam momentos mágicos de euforia. O Cruzeiro Esporte Clube foi buscar no azul celeste do firmamento a constelação de estrelas que compõem seu símbolo. E que tem no gramado estrelas humanas que premiam com momentos indescritíveis de satisfação os amantes do futebol de Minas Gerais. Esta gloriosa esquadra celeste, da qual tenho a honra de ser torcedora fanática e conselheira, na verdade, não é apenas um time de futebol. É uma paixão, é uma febre que carrega multidões aos estádios, que contagia cada cidade de Minas Gerais e espalha sua simpatia por todo o País.”
Taí minha homenagem à mulher cruzeirense neste 8 de março.