Sabará (MG), 06/10/41
“Sabará, um montão de casas e ruas em volta do bar do João Bomba”, informa a placa na parede do botequim da Rua Luiz Cassiano, bem no centro histórico cidade. Muita gente achará simplória uma definição tão singela para um dos berços de Minas. Afinal, fundada em 1711, pelo bandeirante Borba Gato, Sabará é um dos símbolos da mineiridade. Quanta gente famosa nasceu e viveu lá! E a usina siderúrgica da Belgo Mineira, um dos marcos da industrialização do Estado, um orgulho dos sabarenses?
Mas nada disso é mais valioso para os cruzeirenses locais do que o Bar do João Bomba. Lá, entre uma cervejinha e outra, come-se bife de fígado acebolado, curtem-se as vitórias e choram-se as derrotas do mais querido de Minas. Tudo temperado pelas saborosas histórias do João Celso Motta Barros.
Como todo garoto sabarense, ele aprendeu os segredos do futebol no Estadinho da Praia do Ó, reduto do campeão mineiro de 37 e 64, o outrora glorioso Esporte Clube Siderúrgica. A cidade, naqueles tempos, vestia-se de azul e branco para acompanhar o “Esquadrão de Aço” nas tardes de domingo.
Sem dinheiro suficiente para o ingresso, a garotada pulava o muro. Quando a vigilância recrudescia, os meninos resignavam-se em ficar à beira do rio que contornava o estádio, esperando que algum becão rebatesse uma bola pra fora do campo. João Bomba, o melhor gandula extra-muros da época, aproveitava a ocasião, para entrar no estádio, bola molhada debaixo dos braços, sob o olhar agradecido do porteiro que, assim, se via dispensado de enfiar as canelas no riozinho.
Um dia, João Bomba achou que não valia a pena assistir a um desimportante Siderúrgica x Metalusina e preferiu escapulir, rio abaixo, com uma belíssima G-18, a bola vermelha de dezoito gomos, de então. Tornou-se herói dos peladeiros da cidade mas viu fecharem-se, para sempre, as portas do Siderúrgica. Comovido com o sofrimento do garoto, o pai resolveu levá-lo para assistir, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, a um Cruzeiro x Atlético decidindo um dos campeonatos na década de 50.
O Cruzeiro perdeu e João Bomba nunca perdoou o juiz por ter anulado o belíssimo gol de Genuíno, o maior talento dos campos mineiros da época. Fazendo ouvidos moucos aos protestos de jogadores e diretores do time estrelado, o árbitro, decretou: “a bola furou a rede, passou por fora, não foi gol!” E o Cruzeiro continuou na fila por mais um ano. Perdeu o campeonato, mas ganhou um torcedor apaixonado. João Bomba deve ter sido o primeiro sabarense a torcer para um time de outra cidade.
Anos depois, o velho Serafim Motta Barros, pai do Bomba, eleito prefeito, tomou a iniciativa de reaproximar o filho, agora jovem, dos esportistas da cidade. Incluiu-o numa delegação do Siderúrgica que iria à Capital jogar contra o Cruzeiro, no velho Estádio JK. Anistiado por diretores, jogadores e torcedores, nosso personagem foi recebido, de braços abertos, sob a promessa de dar uma forcinha para o time da cidade. Mas o coração falou mais alto. Iniciado o jogo, o filho do prefeito pulou a cerca e foi para as sociais do Cruzeiro.
Encerrada a partida, João, todo sorrisos pela vitória do time estrelado, é barrado no ônibus: “Volte a pé, cruzeirense safado!” – decretou o presidente do Esquadrão de Aço. E as coisas teriam ficado difíceis para o Bomba se um diretor mais realista não advertisse ao presidente: “Temos que levar esta peste, presidente, ou o senhor esqueceu-se de que ele é filho do prefeito?” João embarcou, mas o grito da vitória ficou na garganta até que a delegação se dispersasse na Praça Mello Viana, bem no centro da velha Sabará.
Hoje, quando quase todos os ex-torcedores do Siderúrgica renderam-se aos encantos do outro azul, transformando Sabará numa cidade cruzeirense, nosso herói bate no peito, orgulhoso: “Sou o primeiro cruzeirense da cidade!” É verdade, ninguém contesta. E nem reclama da outra plaquinha que recomenda aos freqüentadores do boteco: “ao entrar aqui / consulte a carteira / se não tiver dinheiro / beba água de torneira”. Afinal, os cruzeirenses – maioria absoluta na cidade – estão dispensados de tal castigo, nas grandes ocasiões.
Historias como estas de futebol da mais que um livro, eita Paginas Heroicas e Imortais!
Nos contemple com outras belas historias dessa Jorge, estas perolas sempre engrandecem ainda mais a historia de toda nação azul espalhada pelo mundo
João Bomba deve ter muitas histórias para contar, além daquela que já contou para o Jorge Santana. E vamos aqui abrindo espaços para estes cruzeirenses considerados por muitos anônimos, mas que aqui no site Cruzeiro.Org deixarão de ser anônimos. Em breve teremos condições de colocar fotos em cada texto do Jorge Santana e ilustrar melhor novas histórias do João “Bomba”.