Cruzeiro pelo método das partidas dobradas

Por Jorge Angrisano Santana | Em 19 de dezembro de 2011

Gustavo Sobrinho

Muito se fala sobre transparência no futebol, mas sempre que o tema demonstrações contábeis é abordado, vários comentaristas questionam a credibilidade destes instrumentos.

Interessante é que as demonstrações contábeis da Vale, Petrobras, e outras empresas de capital aberto servem como instrumento de transparência, mas as de clubes de futebol não.

As demonstrações são instrumentos utilizados pelas organizações para prestar contas aos interessados: clientes, fornecedores, acionistas e, no caso do futebol, torcedores.

Para o torcedor, porém, resultados financeiros pouco importam. O que vale é título. Por isso, eles jamais se preocupam em analisar as contas do clube.

A preocupação é se o ciclo de um jogador se encerrou ou não no clube, se outro é azarado ou religioso etc. Essas besteiras é que tiram o sono do torcedor.

Neste post, proponho outra discussão. Debater alguns pontos relacionados às demonstrações contábeis do Cruzeiro.

O objetivo não é fazer um relatório completo sobre a situação econômico-financeira do clube, pois o espaço não é adequado para um relatório como esse, e eu nem tenho competência para tal.

Uma demonstração contábil é composta por Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), Demonstração do Fluxo de Caixa e Demonstrações de Mutações do Patrimônio Líquido.

Aqui, vou me ater ao Balanço Patrimonial. Em posts futuros, me aventuro a explicar os demais.

O Balanço Patrimonial tem por finalidade demonstrar a situação do patrimônio da empresa, em uma determinada data, normalmente, 31 de dezembro.

É uma espécie de fotografia da situação da empresa. Sua estrutura do Balanço é composta por dois grandes grupos, denominados Ativo e Passivo.

O ativo descreve onde estão aplicados os recursos da empresa e o passivo apresenta a origem desses recursos. Portanto ativo e passivo devem ter o mesmo valor para a conta fechar.

No exercício findo em 31dez10, o Cruzeiro tinha em seu Ativo, aproximadamente, R$231 milhões. Deste total, 41% são referentes a Títulos a Receber de outros clubes, da televisão, de patrocínios, de franquias etc; 32% se referem ao Imobilizado, que é dividido em terrenos, edificações, veículos, entre outros; e 23% se referem ao Intangível, que é composto, basicamente, por direitos econômicos de atletas profissionais e em formação.

Títulos a Receber, com certeza, é a conta que mais gera curiosidade do torcedor, por isso vou detalhar um pouco mais seus valores.

Dos R$95 mi referentes a esta conta, R$55,3 mi deveriam ser recebidos em 2011, e os outros R$39,7 mi somente a partir de 2012. Os valores a serem recebidos em 2011 se dividem em: R$28,4 mi de Televisionamento, R$17,4 mi de Patrocínio e R$9,2 mi de outros clubes.

Já no Passivo, 41% são referentes a Receitas a Apropriar ou Futuras, que são receitas a serem contabilizadas nos resultados de exercícios posteriores, 22% se referem a Obrigações Tributárias, Refis e Timemania e 16% são provenientes de empréstimos junto à instituições financeiras.

O Passivo representa obrigações de pagamento, que podem ser exigíveis no curto ou no longo prazo. Do total de R$231 mi do Passivo, R$112 mi deveriam ser pagas em 2011.

O Ativo, que é onde estão aplicados os recursos, também se divide em curto e longo prazo. Para o curto prazo, 2011, o Clube teria de “disponibilidades” R$62,2 mi.

Ou seja, para honrar todos os seus compromisso em 2011, o Clube precisaria obter R$49,8 mi. Se os recursos de curto prazo não são suficientes para quitar suas obrigações de curto prazo, onde os gestores vão buscar recursos para pagar estas obrigações? Nos recursos de longo prazo, composto, principalmente, pelo Imobilizado (terrenos, edificações, veículos) e pelo Intangível (Direitos econômicos de atletas).

Situação complicada, não? Quando vocês analisarem o Demonstrativo de Resultados do Exercício irão ver que nada é tão ruim que não possa piorar!

Gustavo Sobrinho, 26, cruzeirense, Engenheiro de Produção pela UFMG, Administrador pela FDC, nasceu e mora em Belo Horizonte.

52 comentários para “Cruzeiro pelo método das partidas dobradas”

  1. Sobrinho, bastante louvável a sua iniciativa. Pena que os resultados serão aquém do que você almeja. Um pitaco: Um dos motivos que justificam a incoveniência de comparações, é o objetivo do balanço. Enquanto empresas públicas como a CEMIG são obrigadas a ter vários itens na auditoria contábil (segundo regras que ela tem que obedecer para ter ações na bolsa de NY – Sarbannes (SOX), por exemplo), clubes atendem legislações específicas. Veja um detalhe interessante, empresas comerciais tem que se preocupar com o chamado Balanço Social. Um clube (de futebol ou não) não aborda nenhuma questão de balanço “Social”. Não é curioso??? O objetivo de um não é a Sociedade, no caso do clube o objetivo é uma sociedade que se une por um objetivo e motivos intangíveis. Já pensou se o Cruzeiro fizesse um balanço de resultados “sociais”???

    • Sobrinho disse:

      Sim, Evandro. Cada organização está sujeita a regras específicas. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários), por exemplo, define diversas regras para empresas de capital aberto que os clubes não precisam seguir. As ferramentas de gorvernança vão muito além da publicação de balanços. Mas se o pessoal não lê nem o balanço, o que vai adiantar as outras ferramentas?

  2. Gattuno disse:

    Complicada? A situação é negra.

  3. O que compoem esse passivo de R$231 mi?

    • Wagner Caetano disse:

      Já no Passivo, 41% são referentes a Receitas a Apropriar ou Futuras, que são receitas a serem contabilizadas nos resultados de exercícios posteriores, 22% se referem a Obrigações Tributárias, Refis e Timemania e 16% são provenientes de empréstimos junto à instituições financeiras.

  4. Discordo quando você induz ao pensamento/conclusão de que a situação é complicada. Quando você separa, no balanço em questão, uma projeção de passivo de X e subtrai de uma projeção de ativo de Y, sem considerar a distribuição durante os meses, pode (eu escrevi, PODE, entendeu???) cometer equívocos que o induzem ao erro e leva as outras pessoas, normalmente bem preguiçosos, a concordarem com você sem a menos entender o que você escreveu. Pequeno Exemplo: A contabilidade PODE provisionar encargos e proventos como 13o. para o exercício seguinte e ir abatendo quando forem pagos… NÃO existe exigivel no dia 1.de.janeiro… Cuidado com as conclusões precipitadas.

    • Sobrinho disse:

      Sim, Evandro, pode ocorrer algumas distorções. Mas cheguei não cheguei a essa conclusão apenas com análise dessa subtração. O fato do Cruzeiro ter que pagar 37 mi em emprétimos a instituições financeiras e ter uma operação que não gera resultado econômico e sim prejuízo, me levaram a chegar a essa conclusão! O Cruzeiro não consegue pagar 37 mi de empréstimos com a sua operação.

      • Consegue pagar. Acompanhe o lógica… cedendo direitos federativos/econômicos inflados é possível. Montillo é um exemplo. O Cruzeiro contraiu empréstimos para contratá-lo. Inflou seu salário e valor de multa rescisória, provocando aumento do capital intangível, daí, vende 20% dele do novo valor… paga o empréstimo e ainda pega mais algum emprestado. O Balanço NUNCA vai mostrar isto e NUNCA vai mostrar que estes 37 mi de empréstimos exigíveis a curto prazo serão tirados do CAIXA (Ativo Líquido) do Clube. Se olhar o Fábio, do ponto de vista econômico e financeiro, é um negócio da CHina vendê-lo pelo valor da multa contratual. Capite?

      • Sobrinho disse:

        Poxa, Evandro! Mas foi justamente isso que eu falei. Para pagar precisa usar o intangível! Foi essa a conclusão.

      • Sobrinho, Você tá ansioso. Segure sua volúpia. Releia seu comentário de 2:01pm com calma… e veja se você consegue depreender o que “quis dizer”.

      • Sobrinho disse:

        Evandro, se considerarmos os jogadores como ativo permanente que com eles o clube opera, conclui-se pelo DRE que o clube não consegue pagar 37 mi de empréstimos com a sua operação. Se considerarmos os jogadores como estoque, ativo de curto prazo, como o ZZP, temos dinheiro para pagar os 37 mi de empréstimos. Capite?

      • Sobrinho disse:

        temos dinheiro para pagar os 37 mi de empréstimos com a operação. Capite?

      • Sobrinho, O que vc não capiscou ainda é que NÃO É necessário termos “DINHEIRO” para pagar este tipo de passivo. Uma operação contábil ou ua operação de venda, reduz este tipo de pendência.

  5. julimbh disse:

    Não entendi alguns pontos no texto: “No exercício findo em 31dez10, o Cruzeiro tinha em seu Ativo, aproximadamente, R$231 milhões” depois “Do total de R$231 mi do Passivo, R$112 mi deveriam ser pagas em 2011″. R$231 mi eram passivo ou ativo? ficou um pouco confuso, o ativo era o mesmo valor do ativo? Rola de dar uma esclarecida?

  6. silverio candido disse:

    Com todo respeito, ACHO QUE É UM TEMA QUE FOGE À DISCUSSÃO aqui do PHD e daqueles que não compõe o conselho do Clube, PRINCIPALMENTE baseando-se exclusivamente em ativo e passivo do balancete. Tais questionamentos devem ser feitos no foro certo e pelas pessoas certa, ou seja, no clube e por conselheiros. Daqui a pouco vai aparecer torcedores ou cornetas dizendo asn.eiras sobre contabilidade sem, contudo, terem conhecimento REAL das finanças e de todos os documentos que instruem o balancete.

    • Sobrinho disse:

      Com todo o respeito, o balanço está disponível no site do clube para quem tiver interesse!

    • walfrido disse:

      Discordo frontalmente do Silvério, com todo respeito.

    • Este SIlvério num sabe nada de leis e fica enchendo o saco. Um rábula querendo se passar por guarda-livros.
      Cala a Bôca meu chapa!
      Falou que ia no Encontro, encheu o saco por causa do horário e nem deu as caras.
      Não sabe nem a diferença de balanço e balancete… Pede desculpas e volta em outros posts com seus palpites errados!

  7. Sobrinho disse:

    link para o balanço! http://migre.me/7dgPW

  8. Jdias disse:

    Sobrinho, primeiramente, parabéns pela iniciativa. O balanço do Cruzeiro que eu havia visto, não era dos melhores. Agora 2 pontos:
    O Resultado de Exercício Futuros referem-se a receita de Tv antecipada e parcelas de passes de jogadores vendidos?
    Outra coisa: dá para ver como são tratadas as pendencias fiscais que são pagas pela Timemania?
    Como o Evandro disse, pode haver provisões no curto prazo que não afetariam a liquidez. Talvez a melhor análise seja do Fluxo de Caixa.
    Abs.

    • Sobrinho disse:

      JDias, no balanço, link acima, tem notas explicativas sobre essas duas contas. Verifique se elas respondem às suas perguntas, mais do que isso eu não sei!

  9. Jdias disse:

    Uma outra coisa para esclarecer aos que não são de finanças, análise do balanço, conta-se o patrimônio. Mas no dia-a-dia o que os administradores trabalham é com a geração de caixa para pagar as contas. O Clube pode ter muito patrimônio, mas se não entrar mais dinheiro no caixa que os compromissos que ele tem a pagar, a situação fica feia. É como se o cara tivesse carros, casas, fazendas, joias, etc, mas não tivesse dinheiro para pagar o cartão de crédito. Ou seja, é rico mas não tem dinheiro.

  10. Jdias disse:

    Meu primeiro comentário sumiu!!?? Repetindo: Parabens pela iniciativa. O balanço do clube não é dos melhores para se analisar. Tenho 2 dúvidas: É possível saber se os resultados de exercícios futuros são referentes a adiantamento de cotas de TV e venda de parcela de passe de jogadores? No curto prazo é possível saber a parte da dívida fiscal que é coberta pela Timemania. Ou seja, não gera desenbolso? Como disse o Evandro, provisões se saída de caixa podem distorcer a analise.

  11. Daqui a pouco vão cornetar o Contador do clube em vez do técnico.

    • Ou então cornetar o Conselho Fiscal… conversei com o presidente do Conselho Fiscal na sexta. Ele estava chateado pois alguém aqui no Blog o chamou de incompetente. Não sei quem foi… pediria que ninguém o ofendesse pois ele pode vir aqui nos ajudar a esmiuçar melhor o Balanço do Cruzeiro, ou até, quem sabe, nos dar boas notícias sobre o Balanço de 2011… OU NÃO!!!

  12. walfrido disse:

    Parabéns pela inicativa, Sobrinho. Quisera eu ser capaz de participar desse debate. Mas continue por favor.

  13. Palmeira. disse:

    Embora nunca tenha trabalhado com contabilidade, sou bacharelo em ciências contábeis e gosto muito da área, por ter sido bancário por 26 anos, tendo trabalhado com análise de balanço por mais de 20 anos. Analisar o balanço de um exercício não dá para chegar a nenhuma conclusão. O ideal é a utilização de de três demonstrativos, além de ter uma referência do setor, que no futebol brasileiro não representa nada. Desconheço se há legislação específica para contabilidade esportiva, cont…

    • Palmeira. disse:

      …como existe para contabilidade imobiliária e pública. Em havendo, justifica registrar a valorização do passe do Montillo e do Wallyson, por exemplo. Se fosse na contabilidade empresarial esta valorização só poderia constar no balanço com a venda do ativo, ou com reavaliação de imobilizado. Inaginemos a situação de um Neimar contabilmente falando: o cara não custou nada para o clube, mas tem seu passe estimado em 50 milhoes de euros. E na contabilidade, como está? A conclusão que chego…

      • Palmeira. disse:

        …é que não dá para analisar sem conhecer os preceitos contábeis que regem a contabilidade esportiva.

      • Sobrinho disse:

        Então vamos tentar conhecer os preceitos contábeis que regem a contabilidade esportiva. Ou não vamos nem tentar analisar?

      • Sobrinho disse:

        Resolução CFC 1005/04 do Conselho Regional de Contabilidade. Mãos à obra, Palmeira!

      • O brilhante professor Penido, pai do Matheus Penido, sempre disse isso. “Analisar o balanço de um exercício não dá para chegar a nenhuma conclusão. O ideal é a utilização de de três demonstrativos”

      • Né por nada não, mas estou precisando ter um particular com o Prof Penido.

      • Palmeira. disse:

        Sobrinho, li e achei interessante a Resolução que rege o assunto e é bem esclarecedora. No entanto, com os dados fornecidos/disponíves não se permite fazer a análise. Além dos três demonstrativos anuais, precisaríamos de outras informações que compõem determinadas rubricas do balanço. De qualquer forma, conhecendo o teor da referida resolução, permite entender alguma coisa do balanço do clube.

  14. Parabéns Sobrinho! O debate sobre a saúde finaceira da instituição que amamos é mais que importante. Tenho dúvidas da veracidade dos números apresentados. Pois negociações de atletas são feitas em sigilo, inclusive o post-mortem. Teria que ter no estatuto do clube, algo que proibisse a não divulgação de valores, nem que seja com uma carência mínima. Parabéns.

    • raher disse:

      Tambem acho meritorio o post e debate. Eu formei em administração e CContabeis e detesto balanços, mas saberei ler e entender o que os mais experientes no assunto disserem, com isso e mais um pouco estaremos ajudando a colocar os pingos nos is e evitar trambiques no nosso time.

  15. Chaves disse:

    Sobrinho, Parabéns pela iniciativa. Se juntar essa turma toda dessa foto aqui não dá seu currículo.

  16. Matheus Chaves disse:

    Louvável a iniciativa. Sou leigo no tema mas considero o debate primordial para mostrar para parcela da torcida a realidade financeira do clube. E cabe uma pergunta: quando esse demonstrativo é apresentado a cada conselheiro, os mesmos tem capacidade de analisar estes dados?

  17. Minha opinião: deve a banco? vende quantos jogadores for preciso e quita a dívida.

    • Palmeira. disse:

      Jorge, pois é melhor dever a banco do que a Newton Cardoso e Ricardo Guimarães.

    • Sanjorge é defensor da metodologia ZZP. Não tem dinheiro para comprar o Montillo? Pede emprestado e dá 20%. Usou o dinheiro para pagar salários astronômicos sem perspectiva de de retorno do investimento, cede mais 20% do Montillo para não dever nada para ninguém. Entrega os anéis (que não são seus) para não perder os dedos (que tb não são seus) e não ficar devendo para banqueiro e nem bandido (não seria isto um pleonasmo?)