O dia em que Joãozinho entortou a defesa do Flu

Por Jorge Angrisano Santana | Em 30 de abril de 2006

Faltava um minuto para o fim. O Cruzeiro vencia e o Fluminense pressionava em busca do empate. Joãozinho descansava no círculo central, quando lhe caiu aos pés uma bola rebatida por Zé Carlos. Ele a recolheu, desvencilhou-se do volante Givanildo e do zagueiro Edinho, que estavam por perto, e partiu em alta velocidade rumo ao “Gol da Cidade”. 

Esclarecimento fundamental: Joãozinho só jogava em direção ao gol. Jamais tocava a bola para os lados ou para trás. Por isso, ao invés de cera técnica, optou por disputar uma corrida contra os dois tricolores que não haviam desistido da disputa pela bola. Dentro da área, Givanildo conseguiu emparelhar-se novamente com o ponteiro. Levou um corte e passou batido. Mas quando Joãozinho ia chutar, Paulo Goulart abandonou o arco e jogou-se a seus pés. Fintado, saiu da moldura.

Quando, finalmente, tudo parecia terminado, Givanildo reapareceu em cima da linha. Em vez de soltar uma bomba, como qualquer jogador comum, o Bailarino da Toca, encontrou um espaço entre o incansável pernambucano e o poste esquerdo para enfiar a bola. Sorte do volante. Foi ele quem viu mais de perto a bola rolar mansamente rumo à rede. 3 x1! Fim de jogo. 

Cruzeiro 3 x 1 Fluminense, domingo, 6 de abril de 1980, Mineirão, pela 2ª fase da Copa Ouro, (Campeonato Brasileiro) – Juiz: Oscar Scolfaro (SP) – Público: 24.207 – Renda: Cr$1.587.810,00 – Gols: Nélio, aos 6, e Cristóvão, aos 12 do 1º tempo; Luiz Carlos, aos 28, e Joãozinho, aos 44 min do 2º tempo – Cruzeiro: Luiz Antônio, Nelinho, Zezinho Figueroa, Bianchi e Luiz Cosme; Nélio, Alexandre, Erivelto (Zé Carlos); Jarbas (Tião), Luiz Carlos e Joãozinho. Técnico: Ílton Chaves. / Fluminense: Paulo Goulart. Marinho, Tadeu, Edinho e Chico Fraga; Givanildo, Cristóvão e Mário; Osni, Robertinho e Zezé. Técnico: Zagallo.

15 comentários para “O dia em que Joãozinho entortou a defesa do Flu”

  1. Mauro França disse:

    Lembro-me deste gol como se fosse hoje. Foi mesmo inesquecível.
    E mereceu uma página da revista Placar, com o título de “O Mané da esquerda”. Peço licença para copiar o texto publicado:
    “A torcida do Cruzeiro esperava o time sair para vaiar. Domingo, esperou para aplaudir um jogador: Joãozinho. Não era para menos. O moleque marcou em cima do Fluminense um dos mais lindos gols já vistos pelo Mineirão. Os aplausos soaram como agradecimento. Foi demais, houve até invasão de campo. Como um Garrincha, ele escapou e, na pequena área, cortou um beque e o goleiro – para colocar suavemente no canto.
    - Foi o segundo mais bonito. O primeiro ainda é um que fiz no Peru em 76.
    Até os companheiros se rendiam à molecagem.
    - A gente vê isso uma vez na vida e outra na morte – dizia Nelinho.
    E Joãozinho todo alegre:
    - Acho que vem aí uma nova fase. Pela primeira vez joguei muito bem na Seleção. Hoje, fiz isso. É, me sinto muito feliz.”
    Nas páginas seguintes, a revista trouxe uma sequência de fotos do golaço.

    Apenas uma correção: O técnico na ocasião era Hilton Chaves e não Ilton Oliveira.

  2. Jorge Santana disse:

    Mauro, correção feita. O Hilton com H nunca foi treinador de futebol. E o Zagallo era o técnico do Flu. Não coneço a reportagem da Placar (se vc puder mandá-la, por e-mail, ficaria agradecido. Mas acho que, pra variar, o SérgioCarvalho foi muito econômico ao descrever o lacnce. Do jeito que está parece que tudo começou perto da área e ainda desvaloriza o esforço do Givanildo de Oliveira. Tanto quanto me lembro, O João arrancou do meio de campo. Eu tenho péssimas lembranças da Placar. Foi uma Itatiaia mil vezes mais cruel com o Cruzeiro. Essa revista, sim, vendeu uma falsa imagem do Cruzeiro para todo o país.

  3. Mauro França disse:

    Jorge, quando li o seu texto lembrei-me da sequência de fotos, por procurei a revista na minha coleção. O texto é realmente econômico se lembrarmos do gol. Também me lembro que o Joãozinho pegou a bola pouco depois do meio de campo.
    Quanto a Placar, concordo em parte com você, mas houve época, principalmente nos anos 70, que era uma revista realmente nacional e dava muito destaque ao futebol de todos os estados.
    Este gol também faz parte do primeiro CD do Alberto Rodrigues. Fui ouvir a gravação e fiquei arrepiado.

  4. Jorge Santana disse:

    Epa, eu tenho o CD! Vou conferir.

  5. Mauro França disse:

    Completando, sem querer defender a Placar ou justificá-la, apenas contextualizando, observo que o texto transcrito não era propriamente uma reportagem. Na época,nas páginas iniciais, a revista destacava os melhores momentos da rodada, com uma foto do personagem e um texto curto. Era quase uma foto-legenda. E dominando a página havia uma foto do João “entortando” um marcador.

  6. Ernesto Araujo disse:

    Excelente a lembrança deste jogo. Pra mim que não vivenciei essa página da história cruzeirense, uma verdadeira lição de habilidade.

  7. Jorge Santana disse:

    Caros amigos, escrevi de memória e misturei as marchas. Acertei no atacado, mas errei no varejo. Após conferir o vídeo do jogo, tive que reescrever o post. O gol continuou sensacional, mas, agora, a descrição está mais fiel. Lição: jamais confie na memória na hora de escrever!

  8. Evandro disse:

    SanJorge,
    Fiquei te devendo, mas começo a pagar. Demoro mas pago.
    Para quem quiser ver um VÍDEO do gol do Joãozinho contra o Fluminense que que foi considerado um “Gol de Placa”, é só ir na seguinte direção

    http://www.youtube.com/watch?v=0U4Ymfu3lBQ&search=joaozinho%20cruzeiro

    Matem a saudade deste cracaço!

  9. Ernesto Araujo disse:

    Bendita internet ! Benditos cruzeirenses que disponibilizam essas relíquias !

  10. Jorge Santana disse:

    E o relato, agora, não está mais preciso, Ernesto?

  11. Ernesto Araujo disse:

    Opa, melhorou… Mas o vídeo ainda vale mais que mil palavras heheheh

  12. Jorge Santana disse:

    A experiência de ter visto o gol, ao vivo, é única. Com o tempo, o lance vai ficando cada vez mais bonito. O vídeo é um freio. Sem ele, a mente vai melhorando infinitamente a jogada.

  13. Ernesto Araujo disse:

    Engraçado… Uma vez o Tostão, numa de suas colunas, disse algo parecido sobre a seleção de 70… Ele disse que imaginava como seria se não houvessem registros daqueles jogos, assim não se veriam os erros, as falhas e aquelas partidas ficariam na lembrança sempre belas e cada vez mais míticas…

  14. Jorge Santana disse:

    A primeira vez que vi o Tostão jogar foi em 1965. Meu pai me levou pra ver o “Pelé Branco”. E ele decidiu o jogo contra o Vaco, no Indepedência, com um gol de falta. Na minha memória aquele ficou sendo o primeiro jogo do Tusta pelo Cruzeiro.

    Quando estava escrevendo o livro, nem me dei ao trabalho de pesquisar de tão certo estava da minha verdade. Só quando entrevistei o Tostão foi que me dei conta de quem sua estréia havia sido em 1963. Conferi nos jornais da época. Nem precisava. Minha cabeça havia me pregado uma peça. Como tantas outras.

  15. Márcio Durães disse:

    Eu estava no Mineirão e vi este gol… Incrível…
    Também jamais vou esquecer aquela reportagem da Placar…
    O Mané da esquerda!