A Lagoinha pulsava no ritmo do futebol

Por Jorge Santana | Em 20 de janeiro de 2008

José Carlos Damasceno

Retornei a Beagá pra rever familiares no 7 de setembro. Passando pela Lagoinha fiquei perplexo com a transformação do meu antigo reduto de boêmia. O que sobrou está até bem conservado. Segundo o motorista do táxi, agora, o bairro faz parte do patrimônio cultural da cidade.

Desde pequeno, percebi que, na Lagoinha, pulsava o coração boleiro de Beagá. De dia, muito trabalho: feira dos produtores, lojas atacadistas, fábrica da Antártica, rodoviária etc. À noite, diversão: cabarés, dancings, cinemas e muito papo de bola nos inúmeros bares.

Com a inauguração do Mineirão, de uma forma ou de outra, a cidade inteira tinha que cruzar a Lagoinha pra chegar ao estádio, pois anda não havia a Catalão. Depois do jogo, era pra lá que os mais fanáticos iam comentar a partida. E a discussão começava em torno do Angu do Jesuíno, ao lado da rodoviária. O folclórico Jesuíno não tomava partido. Ninguém sabia por que time torcia. Por isso, seu espaço era campo neutro.

Mas o bairro não respirava somente a rivalidade entre clubes profissionais. Várias agremiações de futebol amador tinham suas sedes no bairro ou nos arredores: Tremedal, Terrestre, Pitangui, Floresta, Praça XII, São Cristóvão, Racing, Matadouro e o bambambã da época, o Rosário, do restaurante homônimo, na Av. Paraná, cujo dono, Rosário Scotelaro, era também dirigente das categorias de base do Cruzeiro.

Destes clubes amadores, saíram grandes nomes. Aos domingos, Zé das Camisas e Barbatana, do Atlético, João Crispim, do América, e Lincoln Alves, do Cruzeiro, acompanhavam partidas de petizes, infantis e juvenis pra garimpar talentos na várzea e no futebol de salão. Telê Santana, Gerson dos Santos, Yustrich e Orlando Fantoni, treinadores de renome, também passavam por lá à cata de novidades e informações sobre promessas do futebol amador.

Hoje em dia, minha querida Lagoinha é apenas patrimônio cultural. Os prédios que restaram estão bem pintados, mas desapareceram os cinemas. Cadê o México, o Mauá e o São Geraldo? E os cabarés? Cadê o Montanhês, de renome nacional? E os bares? A Lagoinha perdeu sua gente e, com ela sua essência, sua alma.

Sinto-me impelido a traçar um paralelo com o atual estágio do futebol mineiro. Nossos clubes têm bons centros de treinamento, belas sedes, tudo bem conservado, mas faltam craques, os personagens que povoam os sonhos do torcedor e que o faziam sair do campo direto para o Angu do Jesuíno ou, mais adiante para o Café Palhares, na Tupinambás, ou o Café Nice, na Praça Sete. Sem as grandes jogadas, resta pouco o que discutir.

E os títulos, cada vez mais escassos? E as monumentais rivalidades, hoje em dia, cada vez mais fluidas? Onde está o outrora poderoso América? E os simpáticos Renascença e Sete de Setembro? Consola saber que algo restou: nós os torcedores apaixonados, que preservamos a essência do futebol da cidade tirando leite de pedra pra discutir quem é melhor se nossos times cismam em freqüentar somente posições intermediárias no Brasileiro.

Seja lá como for, o fanático torcedor mineiro sempre dá um jeito de criar uma arenga em defesa de seu time. É o que ainda faz pulsar o futebol noutros cantos da cidade desde que a Lagoinha tornou-se apenas patrimônio cultural.

José Carlos Damasceno, 56, administrador de empresas e advogado, atleticano, nasceu em Belo Horizonte e, depois de rodar o mundo, mora, um pouco em Goiânia-GO, um pouco em Fazenda Nova-GO.

23 comentários para “A Lagoinha pulsava no ritmo do futebol”

  1. Jorge Santana disse:

    Velho Damas, no final dos Anos 50, o time do Cruzeiro ficava concentrado no Hotel Imperador – Praça Rio Branco ao lado da Feira de Amostras, hoje, rodoviária. A 3 quarteirões do Montanhês! Impossível segiurar a moçada.

    Vc há de perguntar: por que não mudavam de concentração? Porque o hotel era de um cruzeirense e o preço ficava mais em conta. Tempos durangos.

  2. Dylan disse:

    bonito, Damas, a gente quase esquece do pesadelo que era ir pro mineirao pela antonio carlos em dia de cla’ssico…

  3. JOSE NETO disse:

    Amigos,

    naquela época a torcida do galo era monstruosa, quem não se lembra da Forca atleticana de Ocupacão?
    Não existia TV a cabo, computador, video cassete, microondas e celular…a vida era mais simples…mas os tempos mudaram, as criancas de hj não nascem mais de 9 meses, a cura de todas as doencas estão nas celulas tronco, a TV digital está aí e estará em qualquer celular e o CRUZEIRO é a forca de Minas no BRASIL, com quase 7 milhões de torcedores (a sexta maior do Brasil)…e cresce assustadoramente, já é a maior de BH tb segundo todos os últimos sensos de pesquisa levantados…as coisas mudam…e vão mudar ainda mais…tomara que seja pra melhor…pois o importante não é ter a maior torcida, e sim ser a melhor torcida, fiel e guerreira…acho que estamos no caminho certo.

    abracos

    Jose Neto/BH

  4. Frederico disse:

    Parece q foram bons tempos…

  5. Flávio Vieira disse:

    Super legal o relato.
    MAS, títulos só faltam em um dos lados da lagoa…

  6. Flávio Vieira disse:

    O que houve com as antigas e famosas proxenetas da Lagoinha? Têm-se notícias?

  7. Leopoldo Moura Jr. disse:

    Damas,

    Legal o texto.

    Infelizmente não tenho no meu currículo passagens por uma das regiões mais nobres da cidade: Lagoinha City.

    Batia ponto no Mercado Central e no Bar do Zé-Sapo (na Carandaí, em frente ao Colégio Arnaldo).

    PS: Ainda não lí mas confio no bom gosto da patroa e recomendo o livro “Lagoinha”, do Wander Piroli. É da coleção BH -A Cidade de cada um.

  8. Meu avô e meu pai falavam da Lagoinha nos moldes que o Damasceno relata. Faltou o Posto Nocchi, de bandeira da Shell, o Clube dos Tecelões com suas horas dançantes em que Aldair Pinto comandava e alguns outros detalhes como aquelas “vilas” do Luciano “Fayal” que dão um charme à Rua Itapecerica.

    Mas ainda há MUITO o que se fazer pela Lagoinha.

    Muito mesmo…

    Mas do meu tempo de criança é a lembrança de que, em dia de clássico, o departamento de trânsito adotava o “Plano A” ou Plano “B”… eu me deliciava com o movimento dos ônibus e veiculos passando pela Itapecerica, Itapetinga, Boaventura, somente por conta do fluxo de carros para o Mineirão.

  9. foxceleste disse:

    Logo depois da estréia do Botafogo no Campeonato Carioca, o presidente do clube, Bebeto de Freitas, declarou que nesta segunda-feira haverá novidades sobre a nova parceria do clube. Neste sábado, a equipe dirigida por Cuca venceu o Resende, por 2 a 0.

    ‘Nesta segunda vamos anunciar um parceiro importante. Trabalhamos com a possibilidade de tornar o Engenhão ainda mais moderno’, revelou o dirigente. Apesar de não ter dado mais detalhes sobre a origem do parceiro, existe a tendência de que seja um acordo com a empresa européia TBZ, que deve cuidar também, como adiantou Bebeto, da administração do estádio.

    ‘O Engenhão vai viabilizar o Botafogo. Temos muitas idéias e elas serão implementadas durante o Campeonato Brasileiro’, garantiu Bebeto, que espera que seja solucionado o problema das filas para entrar no estádio, oferecendo mais conforto aos torcedores.

    No clube de General Severiano, a TBZ também seria responsável por atrair patrocinadores, realizar eventos e implementar campanhas de fidelidade com o torcedor, como venda de ingressos antecipados através de carnês.

  10. Jorge Santana disse:

    Esclarecimento: o Evandrão do comentário acima é o Jr. Quando o Sr. desfiar suas histórias da boêmia dos 40 e 50 é que vcs vão conhecer melhor a Lagoinha.

    Aos que se intressarem por completar esta viagem ao passado, recomendo um livro do Plínio Barreto sobre o bairro. Suponho que seja encontrado na Papelaria Opus, no Gutierrez. Foi lá que o comprei.

    Deve estar esgotado, mas os donos do estabelcimento dão um jeito de conseguir algum exemplar para atender ao cliente.

  11. Franklin Bronzo disse:

    Foi na revenda de carros usados Nocchi, anexa ao posto citado pelo Evandro, que tive a “ventura” de adquirir meu primeiro “automóvel”. Um possante Austin of England A-49, preto. Cheguei lá com Cr$ 400,00 e saí, daí a meia hora, dirigindo-o. Esse Austin tem história, viu…Uma delas : nos idos de 60, pilotando aquela relíquia, tomei coragem e, escoltado por um colega de serviço, encarei a BR-3, até o Estado da Guanabara, para assistir a uma partida amistosa Flamengo x Cruzeiro. Lá, (1) perdi minha jaqueta novinha no tumulto da entrada e (2) vi o Mengão enfiar sonoros 6 x 2 no nosso timaço, de Tostão, Dirceu, Piazza e Natal…Pra culminar, na penosa viagem de volta, ao trocar de marcha, a alavanca do câmbio soltou-se numa curva, deixando-me em palpos de aranha…Há outros episódios envolvendo essa saudosa macchina. Depois eu conto…

  12. BARRETO, Plínio. Lagoinha, meu amor. Belo Horizonte: Santa Edwiges, [199-]. 225 p., il.

  13. Arthur disse:

    isto é assunto pra quem tem +/- mais que 65 anos, tipo EVANDRO SENIOR…por isso, PASSO! rss

  14. Jorge Santana disse:

    O Bairro da Lagoinha ia da Praça XII ao Centro, na região da Av. Oiapoc e Rua Guaicurus.

    Tomando-se como referência os aspectos culturais, o espaço é bem miaor, incluindo partes baixas da Floresta e do Carlos Prates, algumas ruas do Centro (Caetés, Tupinambas, Guaranis, Acre e Av. Paraná), todo o bairro do Bonfim, parte do Santo André e parte do São Cristóvão, a Pedreira Prado Lopes e a Vila Senhor dos Passos.

    Neste espaço, a memória remete a:

    Origem: Colônia agrícola de italianos
    Personagens: Hilda Furacão, Plínio Barreto, Lagoinha, Jadir Ambrósio, Tostão, Aldair Pinto, Paulo Valentim
    Dança e sexo: Montanhês Dancing, Margot, 32, 8, Flor de Minas e dezenas de outros estabelecimentos.
    Comércio: Feira dos Produtores, Shopping Oi, Shopping Xavante, Mercado São Cristóvão, Drogaria Araújo, Mercearias Nacionais, Armazém do Grillo, Lojas dos turcos da Caetés, Casa Ranieri (onde o Cruzeiro foi projetado), Atacadistas da Guaicurus.
    Restaurantes: Vesúvio, Scotelaro e Rosário
    Serviços: Hotel Imperador, Posto Nocchi, Chaveiro Scoralick, Barbearia do Queiroga.
    Mídia: Rádio Inconfidência e Rádio Itatiaia.
    Clubes varzeanos: Rosário, Matadouro, Terrestre, Pitangui
    Duelo histórico: Guarany x Fluminense
    Points: Angu do Jesuíno, Centro do Chaufferes, Sindicato dos Tecelões e dezenas de bares e restaurantes.
    Jogatina: Matadouro
    Instituições: Copo Lagoinha, Rodas de Samba, Trottoir, O Homem da Cobra e suas garrafadas.
    Cinemas: São Geraldo, Mauá, México, Arte Avenida e São Cristóvão.
    Igrejas: Batista da Lagoinha, Nossa Senhora da Conceição e São Cristóvão
    Escolas: Municipal, Silviano Brandão, Escola de Engenharia e Fafi-BH.
    Favelas: Prado Lopes e Vila Senhor dos Passos
    Merecem tombamento: casarões italianos com afrescos nas varandas, casa da loba, Conjunto do IAPI, Minas Diesel, Cine México.
    Fábrica: Cervejaria Antártica
    Logradouros: Rua Itapecerica, Rua Guaicurus, Praça Vaz de Melo (o coração da muvuca), Praça XV, Praça XII, Rua Mariana, Estação do Metrô e Rua Mauá.
    Rio: Ribeirão do Arruda
    Boxe e Basquete: Ginásio do Paysandu
    Hospital: Odilon Behring

    Chato é que boa parte disso está demolido ou debaixo do compelxo de viadutos.

  15. Sanjorge,

    Pelo que meu pai me contava…
    faltaram os logradouros Pedro Lessa, Paquequer, Diamantina e Bomfim… dentre outros…
    O Hotel Panorama
    O Restaurante-Bar Bandeirante.
    Acho que eu tenho uma foto do cruzamento da linha de trem suburbano, com a via de acesso à Lagoinha quando não existia elevado (ladeando a Feira dos Produtores).

  16. Os craques também são vítimas da perspectiva. Eles estão aí. Tanto que logo vão embora, mas estão aí; e sempre são substituídos por outros…

  17. Carlão Azul disse:

    Parabéns Damasceno, pelo seu passeio ao passado.

  18. Jorge Santana disse:

    Bronzo, vc trocou as marchas. Não do velho Austin, mas da história. Os 6 x 2 foram palicados pelo Cruzeiro em 66, no Mineirão. Em 67, no Marca, o Fla fez 5 x 1 num amistoso, no qual, apesar do placar, o Cruzeiro hogou o fino, perdeu pênalti etc. Mas o Silva estava em noite de Pelé. Abs, JS

  19. Frederico disse:

    Eu joguei um tempo no Pitangui… mas nao era tao charmoso assim nao hehe

  20. Damas disse:

    Prá encerrar não poderia deixar o registro do saudoso Colégio N. Sra. da Conceição (do Pe. Candinho), da minha querida R. Além Paraiba e a favela do Buraco Quente, que sai da Pça XV e vai até na Itapecerica. Quando sobrar tempo, vou fazer um passeio pelo Carlos Prates – maior reduto de atleticanos de BH. Paradoxalmente era no “Charles Plates” que Aldair Pinto (o cruzeirense mais fanático que já conheci) mantinha um dos seus vários domícilios de B. Hte.

  21. Flávia disse:

    Como sempre o Cruzeiro sempre é e sempre será o meu time do coração…
    Goatei das contratações do time azul celeste…
    Adoro você Cruzeiro

  22. francisco fornero disse:

    tempos bons da lagoinha lembro da primeira vez que fui na rua paquequer tinha 17 anos e foi la que transei pela primeira vez com uma Prostituta hj garota de programa sai de la tonto igual um peru em vespera de natal sobre o aldair pinto ele morava na rua corumba no carlos prates eu morava duas ruas abaixo na suassui me apelido na epoca era pirulito pois vendia perulito depois da aula tinha finais de semana que eu tinha que esconder pois todo mundo queria que jogasse bola paera determinado time na epoca quase todas as ruas tunha um time de futebol de salao hj futsal vejo hj esses craque jogando futsal queria ver eles jogarem na minha epoca a bola era tao pequena e tao pezada queria ver eles fazerem este malabarismo com aquela bola e jogar sem colocar a mao no chao gostava muito do bairo carlos prates mas o meu primeiro bairro que morei foi na rua itaperica na logoinha tinha na epoca 4 anos vinha do interior com meus pais hj vivo fora do pais mas sinto muita saudade de minha bh

  23. Luis Góes disse:

    Gostaria, se alguem souber, do paradeiro do “Cintura-Fina”, aquele famoso personagem que vivia na Lagoinha. O tal da navalha e que brigava com os guardas das radio-patrulhas.
    Preciso do nome real dele, se está vivo, onde o encontro e a época precisa em que ele morou na Lagoinha.
    Se alguem souber…
    por favor entre em contato comigo, telefone 9647-9355.

Deixe um comentário

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.